
PERDA AUDITIVA INDUZIDA
PELO RUÍDO EM TRABALHADORES
INDUSTRIAIS DA REGIÃO
METROPOLITANA DE SALVADOR, BAHIA
Carlos Roberto Miranda, Carlos Roberto
Dias, Paulo Gilvane Lopes Pena, Letícia C.C.Nobre e Rosana Aquino
RESUMO
O presente trabalho
constitui-se em um estudo de prevalência, realizado a partir de dados audiométricos
referentes a 7.925 trabalhadores de 44 empresas industriais de nove diferentes ramos de
atividade. A prevalência de perda auditiva foi de 45,9% na população estudada. Em
relação à perda auditiva do tipo induzida pelo ruído (PAIR), somando as perdas
bilaterais e unilaterais, observou-se uma prevalência de 35,7%. Para cada ramo, as
prevalências foram as seguintes: 58,7% no editorial/gráfico, 51,7% no mecânico, 45,9%
no de bebidas, 42,3% no químico/petroquímico, 35,8% no metalúrgico, 33,5% no
siderúrgico, 29,3% no de transportes, 28,0% no de alimentos e 23,4% no têxtil. Chamam
atenção as altas prevalências de PAIR unilateral - 18% dos trabalhadores avaliados. O
presente estudo permitiu delinear um quadro extremamente alarmante dada a magnitude da
prevalência de perda auditiva do tipo induzida pelo ruído, apontando a importância da
implementação, por parte das empresas, de Programas de Conservação Auditiva.
INTRODUÇÃO
O ruído é, na maioria dos
países, o agente nocivo mais prevalente nos ambientes de trabalho. Sua presença nas
atividades laborais soma-se à sua intensa disseminação nos ambientes urbanos e sociais,
especialmente nas atividades de lazer. Essa disseminação quase universal do ruído nos
ambientes sociais e de trabalho ganha maior importância quando se considera que o dano
auditivo dele decorrente é irreversível, e que a exposição produz outros distúrbios -
orgânicos, fisiológicos e psicoemocionais - que resultam em uma evidente diminuição da
qualidade devida e de saúde dos trabalhadores. (1,2,3,4,5)
A perda auditiva decorre de
lesão das células sensoriais do órgão de Corti no ouvido interno, é em geral
bilateral, e tem evolução insidiosa, com perdas progressivas e irreversíveis,
diretamente relacionadas com o tempo de exposição, com os níveis de pressão sonora, e
com a suscetibilidade individual. Essa perda manifesta-se, primeira e predominantemente,
nas freqüências de 6000, 4000 e 3000 Hertz e, com o agravamento da lesão, estende-se
às freqüências de 8000, 2000, 1000, 500 e 250 Hertz. Raramente, o ruído leva à perda
auditiva profunda pois, geralmente, não ultrapassa os 75 decibéis nas freqüências
altas e 40 decibèis nas baixas freqüências, atingindo seu nível máximo nos primeiros
10 a 15 anos de exposição.
Além da perda auditiva
podem ocorrer zumbidos, plenitude auricular, tontura, dor de cabeça, distúrbios
gástricos, alterações transitórias na pressão arterial, estresse e, distúrbios da
visão, atenção, da memória, do sono e do humor. (6,7,8,9,10,11,12,13,14) Às
manifestações biopsíquicas do desgaste diretamente produzido pela exposição ao ruído
somam-se outros aspectos importantes relacionados à precariedade do suporte social e
previdenciário e à ameaça constante de desemprego. (15)
As estimativas do total de
trabalhadores expostos a níveis de ruído capazes de produzir perdas auditivas somam
milhões de trabalhadores em alguns países, sendo que no Brasil a situação não é
diferente. (16,17,18,19,20,21)
Diante do exposto, o
presente trabalho tem como objetivo principal determinar a prevalência de perda auditiva
induzida pelo ruído (PAIR) entre trabalhadores de empresas industriais de nove diferentes
ramos de atividade.
MATERIAL E MÉTODO
O presente trabalho
constitui-se em um estudo de prevalência, realizado a partir de dados audiométricos
referentes a 7.925 trabalhadores de 44 empresas industriais em atividade na Região
Metropolitana de Salvador, Bahia. Foram incluídas empresas de nove ramos de atividade:
químico/petroquímico (11), têxtil (9), transportes (6), metalúrgico(4), bebidas (4),
alimentos (3), mecânico (3), siderúrgico (2) e editorial/gráfico (2). As empresas foram
selecionadas a partir de indicação, solicitada aos sindicatos representativos dos
trabalhadores de cada ramo de atividade, assim como de dados obtidos em estudos de demanda
no ambulatório do Centro de Estudos de Saúde do Trabalhador (CESAT/SUS). Todos os
trabalhadores avaliados foram submetidos a pelo menos um exame audiométrico, obedecendo
às especificações da legislação trabalhista em vigor, a NR-7 da Portaria nº 3214/78.
(22) Na audiometria tonal por via aérea, realizadas em serviços próprios ou
contratados, foram testados as freqüências de 500, 1000, 2000, 3000, 4000, 6000 e 8000
Hertz, sendo que os exames foram realizados por profissionais habilitados(fonoaudiólogo
ou médico) após repouso acústico de mais de 14 horas e foram precedidos de otoscopia no
momento do exame. A partir de informações fornecidas pelas empresas, foi constituído um
banco de dados, utilizando o programa Epi-Info (23), com as seguintes variáveis: nome da
empresa (código), número de matrícula do trabalhador, data de nascimento, data de
admissão, sexo, setor de trabalho, função, limiares auditivos(em decibéis) para as
freqüências de 250, 500, 1000, 2000, 3000, 4000, 6000 e 8000 Hertz em ouvido direito e
ouvido esquerdo, e classificação da perda auditiva em cada ouvido segundo o tipo e o
grau de perda. As perdas auditivas foram classificadas segundo critérios diagnósticos de
diferenciação entre perdas do tipo neurossensorial, condutiva e mista, amplamente
estabelecidos pela clínica audiológica, e a perda auditiva induzida pelo ruído (PAIR)
segundo critérios definidos pelo Comitê Nacional de Ruído e Conservação Auditiva, em
1994. (24) Os limiares auditivos foram considerados normais até 25 decibéis (dB).
Além do tipo de perda, os
traçados audiométricos foram classificados em relação ao grau de perda e, para isso,
adotou-se a classificação proposta por Merluzzi e colaboradores, em 1989. (25) De acordo
com essa classificação, o grau zero (audição normal) corresponde a traçados com
limiares até 25 dB em qualquer freqüência, e assim sucessivamente:
Grau 1 - perdas acima de 25 dB apenas nas
freqüências de 4000, 6000 e 8000 Hz
Grau 2 - inclui perdas em 3000 Hz
Grau 3 - perdas já atingem 2000 Hz
Grau 4 - inclui perdas em 1000 Hz
Grau 5 - atinge, além de todas as outras,
a freqüência de 500 Hz.
Neste estudo, foi decidido
classificar cada ouvido separadamente, independentemente do tipo ou grau de perda no outro
ouvido, discriminando as perdas bilaterais das unilaterais. As variáveis função e setor
de trabalho foram reclassificadas a fim de permitir termos de comparação, utilizando
como critério a posição de cada trabalhador em relação ao processo produtivo. Assim,
todas as funções de acordo com os setores foram classificadas em algum desses seis
grupos: produção, manutenção, serviços gerais, controle de qualidade, apoio à
produção e à manutenção, e administração. O tratamento das variáveis e os
cruzamentos entre as mesmas foram realizados através do pacote estatístico de análise
de dados SPSS (Norusis, 1988). (26)
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Com relação às
características da população estudada, observou-se distribuições variadas de sexo,
idade e tempo de trabalho na empresa, particulares a cada empresa e ramo de atividade. Em
seu conjunto, pode-se dizer que esta população constituiu um grupo de trabalhadores
jovens - com menos de 40 anos de idade, do sexo masculino e com tempos de trabalho na
empresa entre cinco e dez anos. A média de idade em cada ramo foi: 32,8 anos no ramo de
alimentos, 33,6 anos no de bebidas, 34,5 anos no têxtil, 35,8 anos no mecânico, 36,0
anos no metalúrgico, 36,1 anos no químico/petroquímico, 37,4 anos no siderúrgico, 38,4
anos no transporte e 39,3 anos no editorial/gráfico. A distribuição segundo o sexo, em
cada ramo, mostrou que nos ramos de alimentos, editorial/gráfico e transporte entre 73,9%
a 77,7% dos trabalhadores era do sexo masculino; nos ramos mecânico, têxteis e
químico/petroquímico esses percentuais variaram de 83,7% a 89,8%; e, no de bebidas,
metalúrgico e siderúrgico os homens representavam mais de 90,0% da população de
trabalhadores.
As médias de tempo de
trabalho na empresa foram: 4,1 anos no ramo de alimentos, 5,1 anos no têxtil, 5,9 anos no
de bebidas, 6,3 anos no metalúrgico, 6,5 anos no mecânico, 8,8 anos no
químico/petroquímico, 9,4 anos no siderúrgico, 9,9 anos no editorial/gráfico e 10,0
anos no transporte.
Uma vez que não se dispõe
de outros indicadores, é particularmente importante analisar os efeitos da idade e do
tempo de trabalho como aproximação do tempo de exposição. A alta rotatividade,
evidenciada pelas médias de tempo de trabalho menores que o tempo de operação das
empresas, indica que o tempo de trabalho na empresa não corresponde satisfatoriamente ao
tempo de exposição. Em alguns casos, a idade pareceu ser um melhor indicador do tempo de
exposição - ou do tempo na função - do que o tempo de trabalho. É necessário,
portanto, pensar em formas de operacionalização de indicadores de tempo de exposição
que possam ser utilizados, tanto para fins de vigilância à saúde quanto para estudos
epidemiológicos.
A comparação das
prevalências de perda auditiva entre os ramos deve considerar, em primeiro lugar, as
diferenças de percentuais de realização de audiometria entre as empresas em cada ramo.
É preciso cautela na análise da disparidade de resultados entre as empresas, que antes
de refletir situações diferenciadas de exposição a ruído, podem ser resultado de
diferenças nos percentuais de realização de audiometria entre os expostos, em cada
empresa e no total do ramo.
Na população estudada, a
prevalência de perda auditiva foi 45,9%, o que significa que 3.639 trabalhadores
apresentaram tal alteração. Comparando os ramos entre si, observa-se que as maiores
prevalências ocorreram entre os trabalhadores gráficos, de bebidas, em transportes,
mecânicos e químicos/petroquímicos, todos esses com mais de 50,0% dos trabalhadores
acometidos (Tabela 1).
Em relação à perda
auditiva do tipo induzida por ruído, somando as perdas bilaterais e unilaterais,
observou-se uma prevalência de 35,7% de PAIR. Essas prevalências, para cada ramo, foram
as seguintes: 58,7% no editorial/gráfico, 51,7% no mecânico, 45,9 no de bebidas, 42,3%
no químico/petroquímico, 35,8% no metalúrgico, 33,5% no siderúrgico, 29,3% no de
transportes, 28,0% no de alimentos e 23,4% no têxtil (Tabela 1).
Chamam a atenção as altas
prevalências de PAIR unilateral - 18% dos trabalhadores examinados - concentrando-se mais
notadamente nos setores de bebidas e químico/ petroquímico (Tabela 1). Uma outra
observação a ser feita diz respeito à ocorrência de diferença importantes entre
ouvido esquerdo e ouvido direito. Isso implica em reconsiderar o afirmado por muitos que a
PAIR é quase sempre bilateral, sendo necessário melhor esclarecimento desse fato,
inclusive com estudos a respeito da execução das tarefas.
É importante ressaltar,
ainda, que a grande maioria dos casos de PAIR foram classificados como grau 1 da
Classificação de Merluzzi, que corresponde à fase inicial da doença, quando as perdas
auditivas limitam-se às freqüências altas ( de 4000 a 8000 Hertz), como pode ser
evidenciado na Tabela 2. Com a evolução das lesões, após o aprofundamento nas
freqüências altas, as perdas estendem-se progressivamente para às freqüências
intermediárias (3000 Hertz) e às baixas (2000 a 500 Hertz).
A respeito da ocorrência
de outros tipos de perdas auditivas ressaltam, em alguns casos, as altas prevalências das
perdas dos tipos condutiva e mista, especialmente nos setores de transportes e de bebidas
(Tabela 2). Essas perdas podem ter alguma relação com as condições de trabalho, se bem
avaliadas, e não devem ser menosprezadas. Esse fato é de extrema importância se se
considera a saúde do trabalhador de uma forma integral, do mesmo modo que suas
condições de trabalho e a totalidade dos riscos a que estão expostos os trabalhadores.
Alguns estudos indicam que até 60,0% de uma população trabalhadora tem outros problemas
otológicos que não surdez ocupacional (ROBINSON, 1973; DOBIE, 1985; AZEVEDO, 1989).
(28,29,30)
Outro aspecto importante do
desgaste à saúde detectado neste estudo diz respeito à distribuição das perdas
auditivas entre as funções. As prevalências de perdas auditivas em trabalhadores em
manutenção e em serviços de apoio à produção e à manutenção indicam que há uma
população maior de trabalhadores expostos além daqueles diretamente ligados à
produção, inclusive com maior ocorrência de PAIR, em alguns casos (Tabela 3).
TABELA 1. Distribuição dos
trabalhadores segundo tipo de perda auditiva,
por ramo de atividade, Região
Metropolitana de Salvador, Bahia
| RAMO
DE ATIVIDADE |
TOTAL
DE TRABALHADORES |
PERDA AUDITIVA TOTAL* |
PERDA AUDITIVA INDUZIDA PELO RUÍDO(PAIR) |
| |
|
|
BILATERAL |
UNILATERAL
TOTAL* |
UNILATERAL
OD |
UNILATERAL
OE |
| |
Nº |
% |
% |
% |
% |
% |
| Editorial/
Gráfico |
75 |
70,7 |
40,0 |
18,7 |
10,7 |
8,0 |
| Bebidas |
364 |
64,0 |
23,6 |
22,3 |
11,3 |
11,0 |
| Transportes |
572 |
55,9 |
11,9 |
17,4 |
8,1 |
9,3 |
| Mecânico |
340 |
55,2 |
33,1 |
18,6 |
7,6 |
11,0 |
| Químico /
Petroquímico |
2.880 |
50,7 |
21,1 |
21,2 |
7,9 |
13,3 |
| Metalúrgico |
1.052 |
43,6 |
16,9 |
18,9 |
8,0 |
10,9 |
| Siderúrgico |
415 |
43,1 |
14,7 |
18,8 |
10,4 |
8,4 |
| Alimentos |
368 |
37,5 |
11,1 |
16,9 |
7,1 |
9,8 |
| Têxtil |
1.859 |
32,6 |
11,7 |
11,7 |
4,3 |
7,4 |
| |
|
|
|
|
|
|
| TOTAL |
7.925 |
45,9 |
17,7 |
18,0 |
8,4 |
9,6 |
* Perdas auditivas
de todos os tipos: condutivas, mistas, PAIR e outras não características
** PAIR unilateral e associada a
outra causa
TABELA 2. Distribuição dos trabalhadores
segundo grau de perda auditiva
( Merluzzi), por ramo de atividade, Região
Metropolitana de
Salvador, Bahia
| RAMO
DE ATIVIDADE |
TOTAL DE TRABALHADORES |
GRAU DE PERDA AUDITIVA |
| |
|
NORMAL |
1º GRAU |
2º GRAU |
3º GRAU |
4º GRAU |
5º GRAU |
OUTRAS* |
| |
Nº |
% |
% |
% |
% |
% |
% |
% |
| Editorial/
Gráfico |
75 |
40,0 |
30,7 |
13,3 |
2,7 |
- |
1,3 |
12,0 |
| Bebidas |
364 |
43,1 |
24,2 |
7,7 |
1,9 |
0,3 |
0,3 |
22,5 |
| Transportes |
572 |
51,8 |
12,7 |
3,1 |
2,5 |
0,7 |
2,3 |
26,9 |
| Mecânico |
340 |
51,7 |
32,6 |
9,6 |
2,3 |
- |
- |
3,8 |
| Químico /
Petroquímico |
2.880 |
58,4 |
20,2 |
10,0 |
3,0 |
0,3 |
0,8 |
7,3 |
| Metalúrgico |
1.052 |
66,2 |
18,0 |
5,9 |
2,8 |
0,7 |
0,4 |
6,0 |
| Siderúrgico |
415 |
67,2 |
19,0 |
2,2 |
1,7 |
- |
0,2 |
9,7 |
| Alimentos |
368 |
71,5 |
15,2 |
4,1 |
0,8 |
- |
0,8 |
7,6 |
| Têxtil |
1.859 |
73,0 |
13,0 |
3,8 |
1,9 |
0,1 |
0,1 |
8,1 |
| |
|
|
|
|
|
|
|
|
| TOTAL |
7.925 |
58,1 |
20,6 |
6,6 |
2,2 |
0,2 |
0,7 |
11,6 |
* Perdas condutivas, mistas e outras perdas
neurossensoriais não classificáveis segundo Merluzzi
TABELA 3. Distribuição dos trabalhadores
segundo grau de perda auditiva,
(Merluzzi), por função e setor de
trabalho, Região Metropolitana
de Salvador, Bahia
FUNÇÃO |
TOTAL DE TRABALHADORES |
GRAU DE PERDA AUDITIVA |
| |
|
NORMAL |
1º GRAU |
2º GRAU |
3º GRAU |
4º GRAU |
5º GRAU |
OUTRAS* |
| |
Nº |
% |
% |
% |
% |
% |
% |
% |
| Produção |
4.873 |
58,9 |
20,0 |
6,4 |
2,2 |
0,2 |
0,6 |
11,7 |
| Manutenção |
1.304 |
50,9 |
24,8 |
7,5 |
2,7 |
0,4 |
1,6 |
12,1 |
| Apoio* * |
639 |
62,0 |
21,7 |
4,9 |
1,6 |
0,1 |
0,4 |
9,3 |
| Controle de
Qualidade |
429 |
72,9 |
10,5 |
5,2 |
2,7 |
0,2 |
- |
8,5 |
| Serviços Gerais |
270 |
65,9 |
12,6 |
7,5 |
1,6 |
- |
0,9 |
11,5 |
| Administração |
410 |
64,6 |
19,5 |
4,8 |
0,8 |
0,2 |
0,1 |
10,0 |
* Perdas condutivas, mistas e outras
perdas neurossensoriais não classificáveis segundo Merluzzi
** Funções de apoio à produção e à
manutenção(carga e descarga, utilidades, expedição)
CONCLUSÃO
A exposição ao ruído é
o problema de saúde ocupacional mais prevalente nos ambientes industriais. Os efeitos
desta exposição no aparelho auditivo humano são bem conhecidos e decorrem de lesões
das células sensoriais do órgão de Corti do ouvido interno.
Este estudo permitiu
delinear um quadro extremamente alarmante dada a magnitude da prevalência de perda
auditiva do tipo induzida por ruído (PAIR) - 35,7% do total de 7.925 trabalhadores, ou
seja, um em cada três trabalhadores desenvolveu algum grau de perda em pelo menos um dos
ouvidos. É importante ressaltar que a maioria dos casos de perdas auditivas foram
caracterizados como Grau 1 da Classificação de Merluzzi, o qual corresponde à fase
inicial da evolução da doença. As maiores prevalências de PAIR foram encontradas entre
os trabalhadores ligados à produção, à manutenção e aos serviços de apoio à
produção e à manutenção.
Os resultados do presente
trabalho apontam a importância da implementação, por parte das empresas, de Programas
de Conservação Auditiva com o objetivo de prevenir a instalação ou evolução de
perdas auditivas em trabalhadores expostos ao ruído presente nos locais de trabalho.
Esses programas devem contemplar pelo menos os seguintes aspectos básicos:
- Programa de Controle Médico: monitoramento
dos trabalhadores expostos ao ruído ambiental através de exames audiométricos
realizados por ocasião do exame admissional, seis meses após a admissão e,
posteriormente, a cada ano.
- Programa de Avaliação Ambiental: medição
periódica dos níveis de pressão sonora nos ambientes de trabalho decibelimetria) assim
como monitoramento da exposição individual, buscando definir a dose de ruído recebida
por cada um dos trabalhadores através da utilização de dosímetros.
Medidas de Proteção Coletiva: Podem
ser organizativas (Exemplo: introdução de pausas durante o trabalho, reorganização do
processo de trabalho) ou de controle ambiental (Exemplo: manutenção preventiva e
corretiva de máquinas e equipamentos ruidosos, reorganização do "layout",
isolamento e/ou enclausuramento de máquinas e equipamentos, tratamento acústico de
paredes, entre outros).
- Medida de Proteção Individual:
uso constante e obrigatório de protetores auriculares ( tipo concha ou de inserção).
- Programa Educativo: com o objetivo de levar
ao conhecimento, tanto de trabalhadores como de empregadores, os riscos à exposição ao
ruído e as medidas de proteção que podem ser adotadas, buscando seu envolvimento na
implantação e na execução do programa de conservação auditiva.
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